Nutrir nas Escolas Cultura alimentar regional no cardápio das escolas

Um dos aspectos da cultura alimentar brasileira é a grande diversidade de alimentos que encontramos pelo país. Cada estado, ou até mesmo cidade, tem hábitos alimentares e ingredientes típicos, o que torna a culinária do Brasil uma enorme mistura de sabores. E é muito importante que essa regionalidade esteja presente também nas refeições escolares. Na verdade, é uma condição exigida por lei – mais especificamente, pela Lei nº 11.947/2009, que estabelece como uma das diretrizes da alimentação escolar o emprego de alimentos que respeitem a cultura, as tradições e os hábitos alimentares saudáveis.

Considerando que o acesso a alimentos produzidos fora das regiões está cada vez mais fácil, essa diretriz é ainda mais importante para fortalecer os hábitos alimentares regionais entre as crianças. Estudos realizados por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) com a colaboração de pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal do Acre (UFAC) e Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) mostram que a dieta dos brasileiros está ficando cada vez mais padronizada. Até mesmo em locais mais isolados, como as comunidades ribeirinhas na Amazônia e de pescadores no litoral Norte de São Paulo, os moradores estão fazendo refeições mais parecidas com as da população dos centros urbanos, incluindo enlatados, frango congelado e outros alimentos industrializados.

Em Carazinho (RS), as tradições locais ainda se mantêm fortes. A nutricionista da Secretaria Municipal de Educação Elenise Ehrhardt conta que a cultura gaúcha é bastante presente no dia a dia das famílias, inclusive na alimentação. Nas escolas não é diferente: ingredientes como moranga, mandioca, batata-doce, couve, feijão e carnes − culturas muito importantes na região − são alguns dos alimentos encontrados nos cardápios. Em períodos festivos, como Festa Junina e a Semana Farroupilha, as refeições escolares ganham opções especiais, como pinhão, churrasco e feijão campeiro.

De acordo com a Lei nº 11.947, no mínimo 30% dos recursos financeiros repassados pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) precisam ser utilizados para adquirir alimentos produzidos pela agricultura familiar. Em Carazinho, a meta é sempre tentar destinar entre 50 e 60% dos recursos para essa finalidade. “Temos organizado a aquisição em forma de cooperativa. Os agricultores locais já tentam organizar a produção levando em conta a alimentação escolar”, explica Elenise.

O cardápio das escolas de Belo Horizonte (MG) também inclui uma variedade de alimentos que fazem parte da dieta mineira, especialmente produtos hortifrutigranjeiros. Angu, canjiquinha, farofa, mingau e outras receitas típicas fazem parte da alimentação dos estudantes. Assim como em Carazinho, o cardápio é diversificado em certos períodos – no inverno, por exemplo, há opções de caldos, sopas e canjica doce.

Para a nutricionista da Secretaria Municipal Adjunta de Segurança Alimentar e Nutricional (SMASAN) Kelly Gurgel Araujo, a regionalidade na alimentação escolar é importante não apenas para valorizar a cultura alimentar local nas escolas. “É também para melhorar os hábitos rotineiros e a aceitação dos alimentos”, acrescenta Kelly. Como muitas crianças já consomem alguns alimentos típicos em suas casas, elas têm mais familiaridade com as opções servidas na escola.